Dicas

Neste novo espaço, o escritor e poeta Rodrigo Capella esclarece as principais dúvidas dos leitores: como eu escrevo meu primero livro? Como eu publico o primeiro livro? Quais os caminhos para entrar em contato com as editoras? O que é agente literário? Como lidar com a crítica literária?

Essas e outras dúvidas são respondidas nas linhas abaixo. São dez questões respondidas e também três dicas extras: antologias, como escrever um livro e conquista de leitores. Não perca!! Acompanhe abaixo:

1) Construção da História

Robson Serradilha me enviou a seguinte questão: “olá, acredito que devas receber esse tipo de e-mail todos os dias, mas presciso de dois minutos de sua atenção. Há muito tempo, venho construindo uma história em minha cabeça e sonho em escrevê-la, mas ainda me falta técnica. Gostaria de uma ajuda para começar a história. Tenho a dificuldade de escrever o tal do esqueleto do livro, que alias é do gênero romance aventura, com contos do tipo senhor dos anéis. Espero uma resposta positiva e obrigado”.

Caro Robson, vou dar algumas dicas, mas antes proponho um exercício: comece a descrever uma cena qualquer em detalhes, algo de seu cotidiano. Um exemplo: o que a sua casa tem de diferente? O que você gosta de fazer nela? Você tem animais de estimação, costuma brincar com eles em casa? Escreva sobre isso. Depois, repita esse exercício descrevendo uma cena que está ocorrendo na rua. Para isso, converse com as pessoas, faça pequenas entrevistas e vá em frente: coloque tudo no papel. Pronto, agora você já pode começar a escrever o livro.

Mas, antes de pensar na história, reserve uma parte do seu tempo para fazer uma ampla pesquisa, todos os dias, sem pressa. É preciso ter disciplina e dedicação total. Tranque a porta de seu quarto, não atenda o telefone, não brinque no computador. Pense apenas em ler e absorver conteúdo.  É preciso ter muito conhecimento, antes de iniciar uma obra.

Depois de concluir essa fase, escreva sem a pretensão de concluir a obra, escreva com motivação e entusiasmo. Esqueça o tal esqueleto e escreva simplesmente por escrever. Comece descrevendo uma cena, tal como você fez nos dois exercícios. Depois, apresente o personagem principal, descreva as características dele. Deixe a coisa fluir, deixe o personagem conduzir a história.Concentre-se, tenha calma e vá em frente! Nunca se desespere.

2) Contato com editoras

Ernesto Magalhães me enviou a seguinte pergunta: “Oi Rodrigo, tenho uma dúvida: o que são os originais? Pode parecer uma pergunta boba, mas nunca sei se é o rascunho do livro todo, apenas os primeiros capítulos ou a apresentação junto com o projeto. Pergunto pois estou no início de pesquisa para escrever uma biografia. Já tenho autorização dos biografados, mas estou ainda redigindo o primeiro capítulo. Devo mandar para as editoras o projeto com um capítulo ou esperar até terminar o livro todo?”

Ótimo, Ernesto, vejo que você está conduzindo a sua pesquisa muito bem. Essa é uma fase muito importante e crucial. Se ela for mal executada, o livro não terá uma boa condução e sua obra, provavelmente, não será publicada. Parabéns por esse início de trabalho.

Vamos ás respostas: os originais correspondem ao livro completo, com apresentação, capítulos e prefácio. Algumas editoras solicitam o original completo; outras somente parte dele. Por isso, é preciso estar atento e cumprir as regras. Visite o site das editoras, informe-se e prepare o material de acordo com o que for pedido.

Mas, antes é preciso terminar o livro. Uma editora que solicitou, inicialmente, o primeiro capítulo pode – e isso é muito comum – requisitar o livro todo para avaliar melhor a obra e dar um parecer. Por isso, verifique se a ortografia está correta, leia todos os capitulos, tenha a certeza de que os leitores vão gostar da história e, principalmente, escreva uma história confortável, que você se sinta bem.

3) Medo da crítica

Letícia Torres me perguntou: “oi Rodrigo, eu sempre tive muita vontade de publicar um livro. Escrevo há algum tempo, tenho textos o suficiente pra formar um. Muitas pessoas dão sorrisos quando os lêem e me dizem que eu deveria publicá-los. Mas o fato é que eu sou meio medrosa pra essas coisas. Tenho medo das críticas. Gostaria de saber quais os ingredientes necessários para seguir em frente”.

Letícia, nunca tenha medo: se você tiver essa postura, não será escritora e nunca publicará um livro. O escritor não pode ser influenciado pela crítica, não pode se abalar com palavras negativas, não pode nunca desistir. Não pode ter dúvidas se continuará a escrever. O escritor é, acima de tudo, um ser que vive em outra atmosfera, um ser sensível e dono de suas palavras.

O principal ingrediente de um livro é a sensibilidade do escritor e ela nunca poderá ser julgada pela crítica. O crítico, muitas vezes, não tem conhecimentos necessários para julgar uma outra; ele analisa um livro sem ter a certeza de que está fazendo uma boa avaliação. Portanto, desconsidere o crítico e pense apenas em escrever. Se as pessoas aprovaram o seu livro, vá em frente. Esse é um bom sinal.

Releia todos os seus textos, faça as correções necessária, monte um belo projeto e envie para as editoras. Não perca as esperanças. Você tem muita sensibilidade, tem determinação e tem metas definidas – publicar um livro -, portanto, termine a sua obra e mostre que você tem talento.

4) Roubo de idéias

Johny Alves me enviou a seguinte mensagem: “Li o último artigo do senhor e esclareci muitas dúvidas, porém continuo com uma: antes de apresentar um livro a uma editora, o autor tem que fazer alguma coisa para não plagiarem a obra dele,
tal como os cientistas fazem, para não roubarem as idéias? Muito obrigado por seus conselhos aos futuros escritores. Abraços, Johny”.

Amigo Johny, muito interessante e pertinente essa sua pergunta. Já participei de vários debates com editores e eles sempre defendem que o autor não precisa registrar o livro, pois as editoras fazem isso antes de publicá-lo. Eu discordo dos editores e aconselho os jovens autores a entrarem em contato com a Biblioteca Nacional pelo site www.bn.com.br. Lá tem todas as informações.

Mas, um alerta se faz preciso: esse registro não garante que, por exemplo, a idéia de sua obra não vai ser copiada. Até porque o registro não protege a idéia, mas sim o conteúdo da obra. Resumindo: é uma pequena garantia que você tem, mas é melhor do que nada.

Se a editora gostou de uma obra de um autor desconhecido, ela pode, por exemplo, pegar a idéia central e encomendar uma obra semelhante a um autor famoso. Nesse caso, ela simplesmente ignora o livro do autor desconhecido. Esse tipo de postura ocorre com certa frequência. Portanto, capriche na apresentação dos originais, revise seu texto, reescreva-o e faça as correções necessárias.

5) Idéia e Projeto

Rafael Coelho apresentou-me, via e-mail, uma idéia de livro e fez algumas perguntas. Acompanhe uma parte da mensagem: “Fala Rodrigo! Sou jovem, tenho apenas 22 anos e no ano passado comecei a escrever um livro chamado "Outras histórias do 174", que retrata a vida de pessoas que andavam diariamente no ônibus 174, aquele da tragédia na cidade do Rio de Janeiro. A idéia é olhar dentro de universo (o ônibus) e colhetar boas histórias, fatos da vida de tantas pessoas que andavam na linha 174. "Outras Histórias do 174" quer ir por outro caminho, mostrando que tudo na vida tem seus dois lados, mas que na maioria das vezes valorozamos a parte ruim. Então... Eu arquivei o projeto. Devido a 1001 coisas que venho fazendo acabei parando de escrever. Mas, retornei com o projeto. O que você achou do livro? Às vezes acho que o tema é fraco. Outras, acho que tem uma proposta bacana. Um professor o considerou oportunista! E você, o que acha? Quais editoras você acha que, ao menos, leriam o livro? Forte abraço, Rafael.”

Amigo Rafael, você tem um belo projeto pela frente. Gostei bastante do título da obra e da proposta. Um projeto como esse exige uma ampla pesquisa e a coleta de inúmeras informações inéditas. Trata-se, portanto, de um livro ousado, que precisa ser bem conduzido para não ficar sensacionalista.

Primeiramente, você precisa se dedicar e ter motivação pelo trabalho. Não adianta fazer 1001 coisas ao mesmo tempo. Pense, respire e viva para escrever. O melhor escritor é aquele que sonha escrevendo e escreve acordado. Uma distração qualquer pode colocar tudo a perder. Lembre-se: esse é o projeto da sua vida e você deve interpretá-lo como tal. Nunca desista, nunca abandone um livro, por mais simples que ele parece. O verdadeiro autor é capaz de transformar uma história inútil em um best-seller.

Um segundo conselho: antes de escrever, pense no público; pense em um diferencial e procure histórias que realmente merecem ser contadas. O escritor precisa ter uma sensibilidade apurada para captar essas histórias. Uma última dica: escreva e, somente depois de terminar o livro, pense nas editoras. Se o projeto for bom, elas vão ler; se ficar ruim, jogaram fora. Essa é a regra do jogo. Seja bem-vindo a ele!

6) Novos Escritores

Heloisa Mattos disse assim: “Caro Rodrigo, venho acompanhando os seus artigos e gostaria de lhe perguntar algo: estou em vias de publicar o meu primeiro livro e tenho curiosidade de saber se a crítica literária brasileira aceita os nossos escritores. Beijos, Heloisa”.

Amiga Heloisa, o Brasil não tem, atualmente, uma crítica literária competente. Apenas, uma pessoa consegue captar a essência da obra e transformar em argumentos coerentes. Essa pessoa chama-se Miguel Sanches Neto. As demais, escrevem resenhas, comentários ou observações; e não críticas.

Vou contar um caso curioso: uma crítica da Folha de S. Paulo comentou o ótimo livro “Negócios de Família”, de Domingos Pellegrini Jr, dizendo que o autor não tinha evoluído e que continuava escrevendo como há vinte anos. Detalhe: o livro que ela tinha lido era de vinte anos atrás e tinha sido apenas republicado. Veja como faltou preparo. A critica brasileira precisa se renovar!

7) Direitos Autorais

Felipe Kopp me enviou a seguinte mensagem: “li um artigo seu tirando dúvidas de pessoas que lhe enviaram e-mails acerca de publicações de livros. Bom, já que o sr. deu corda vou abusar um pouquinho, se puder ajudar: para participar de um concurso de literatura em que devo enviar os originais, antes disso eu posso (devo) registrar a obra junto à biblioteca nacional para que os direitos autorais sejam meus ouuuu posso (devo) manda-la sem registrar já que os direitos autorais passarão para os promotores do concurso?”

Amigo Felipe, os direitos autorais da obra em questão serão sempre seus. Recomendo que você registre o material na Biblioteca Nacional. No site, há todas as informações: www.bn.br Mas, vale ressaltar que você estará registrando a obra e não a idéia. No Brasil, não há registro de idéias. Portanto, se uma pessoa gostar do tema do seu texto, poderá desenvolver um similar e não receberá punição.

Você citou algo importante: os concursos de literatura. Recomendo a todos os escritores amadores ou profisionais que participem dos concursos. Eles dão boa visibilidade e ajudam o escritor a se tornar mais conhecido e ainda ajudam o autor a repensar sobre a sua obra, acrescentando alguns elementos e tornando os próximos textos ainda melhor e mais atrativos.

8) Apresentação

Regina Mercia, historiadora, que mora em Nova Olímpia (MT), disse assim: “Rodrigo, eu li a sua reportagem sobre ajudar as pessoas em como editar livros. Eu escrevo poemas e também para jornais, e gostaria de editar um livro com meus poemas, mas não sei qual caminho seguir, você disse que tem que apresentar um projeto para a editora, por favor de-me o modelo, pois só monto projetos para escola. Espero ser atendida no pedido de auxilio, e agradeço”.

Amiga Regina, vamos ao modelo: primeiramente revise todas as suas poesias e elimine eventuais erros. As editoras, simplesmente, ignoram as poesias que têm erros. Depois, faça um prefácio ou convide um escritor para fazê-lo. Normalmente, a segunda opção é a mais valorizada. Em seguida, escreva uma carta de apresentação do projeto, colocando os principais objetivos do livro, o público que você pretende atingir e quais as propostas do texto. Faça um outro documento descrevendo a sua experiência profissional e grampei junto com a carta de apresentação do livro. No seu currículo profissional, conte tudo nos mínimos detalhes: os projetos que você desenvolveu nas escolas, o que você já fez como historiadora e os outros projetos que você está planejando executar. A editora vai medir a quantidade de contatos que você tem pela quantidade de projetos executados. Quanto mais projetos fazemos, mais pessoas conhecemos e mais chance temos de vender livros. É uma equação simples!

9) Primeiro Livro

Uma outra mensagem veio de Santa Catarina e foi assinada por Jucilei Leonel Paulino, instrutor de trânsito: “Sou de Jaraguá do Sul e tenho uma participaçao no livro "Crônicas de Jaraguá", recente lançamento da "Desin Editora". Gostaria por gentileza que me enviasse um comentario seu sobre o que você acha de alguem estreiar no lançamento de um livro sem a parceria de uma editora. É o que eu estou pensando pelo fato de nao atrair a boa vontade d"lles... É isso! Sucesso!! e boas idéias ...valeu!!obrigado!!”

Amigo, cabe, inicialmente, um comentário: a participação em antologias, tais como a “Crônicas de Jaraguá”, é muito importante, pois ajuda o escritor a encontrar o seu próprio estilo e também a fazer amizades literárias, que, normalmente, trazem bons frutos: como a troca de informações, o convívio com escritores e uma maior visibilidade de sua obra. Bom, vamos agora tirar a sua dúvida: quando você quis dizer “lançamento de um livro sem a parceria de uma editora”, você quis dizer lançamento de forma independente?

Se sim, vamos a alguns conselhos: alguns amigos escritores optaram por lançar livros dessa forma, pois eles ganhariam mais dinheiro. E isso realmente ocorreu: quando você paga a publicação, os livros ficam com você, e você ganha uma porcentagem maior com as vendas, já que, em uma publicação em parceria com as editoras, os autores ganham apenas 10% do preço de capa do livro. Mas, valem algumas observações: se você lança independente, você tem que distribuir os livros, tem que vendê-los, tem que divulgá-los, tem que fazer um monte de coisas. Eu, sinceramente, acho que não compensa. Eu prefiro lançar em parceria com uma editora, ganhar somente 10% preço de capa do livro e ter uma boa divulgação da obra, graças aos mecanismos utilizados pelas editoras. Uma boa divulgação do livro vai ajudar você a dar palestras, ser convidados para debates, dar aulas e participar de vários eventos. Você perde agora e ganha no futuro!

10) Agente Literário

Tiana Souza disse: “Rodrigo, gostaria de trocar idéias sobre o mundo literário. Lancei um livro em 2003, chamado "O galo que pingava ouro". Escrevo sempre e tenho vários textos infanto-juvenil. Acabei de escrever um romance infato-juvenil, e um romance para adulto. Estou pensando em contratar um agente literário para vender minhas obras. Gostaria de saber sua opinão sobre o assunto. E se quiser me dar algum conselho, fique a vontade. Aguardo resposta”.

Tiana, vamos por partes. Fiquei contente em saber que você tem uma intensa produção literária. Uma máxima é verdadeira: quanto mais escrevemos, melhor escrevemos. Isso ocorre com todo e qualquer escritor. Você está no caminho certo. E o melhor: está diversificando o público e conhecendo exatamnte o que o seu público espera de vocês.

Agente literário? Boa pergunta. Vale uma explicação para os leitores: o agente literário é o profissional que faz a ponte entre as editoras e os autores, marcando reuniões nas editoras para tentar viabilizar a publicação de uma determinada obra. O serviço desse profissional custa, no mínimo, R$ 200 por mês, segundo pude me informar. Vale a pena contratar? Sinseramente não sei? Mas, vou lhe passar os pontos positivos e negativos.

Positivos: maior chance de ter a sua obra publicada, já que os agentes têm normalmente bons contatos; maior visibilidade no segmento editorial, já que esses profissionais vão até as editoras e expõe toda a proposta do livros; e uma melhora considerável do texto, já que muitos agentes fazem uma revisão ortográfica do texto.

Pontos negativos: os agentes não se comprometem a publicar a obra, ou seja, você paga e não tem garantia de que o seu livro será publicado; além de pagar uma taxa mensal, você, provavelmente, terá que dar uma porcentagem de capa do livro para o agente, a depender do contrato. Ou seja, o autor já ganha pouco e terá que dividir o pouco que ganha com um agente. Vale a pena? E mais: os agentes cuidam de vários livros ao mesmo tempo, de diferentes autores, e não se dedicará integralmente ao seu livro.

Portanto, trata-se de uma decisão de dois pesos e duas medidas: a decisão é sua! Reflita e tome a melhor decisão: um erro cometido agora, pode afetar toda a sua carreira literária. Não tome uma decisão de imediato, converse com mais alguns escritores e vá em frente.

Dica Extra I: Como Escrever um livro?

Durante todos esses anos, a humanidade vem cultivando a idéia de que o homem precisa plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. A árvore você já deve ter plantado na escola, durante o primário, quando as “tias” (leia-se professoras) levavam os alunos ao jardim e lá davam as orientações de como colocar a semente na terra. O filho deve estar agora ao seu lado, jogando vídeo game ou brincando com o cachorro, que provavelmente se chama Rex ou Bob. Mas e o livro?

Antes de pegar o lápis e uma folha de papel, determine o público que você pretende atingir. Ele é normalmente dividido, pelas editoras, em infantil, juvenil e adulto. Reflita e não tenha pressa para fazer a escolha adequada. Uma decisão mal tomada no início do processo pode compromoter  todo o resto do trabalho.

Os grandes autores de nossa literatura sempre tiveram a preocupação de direcionar as suas obras. Monteiro Lobato, por exemplo, escreveu vários textos para crianças. Já Pedro Bandeira soube, como ninguém, atingir os adolescentes ao criar os Karas, grupo de jovens que investigam mistérios e estão presentes em vários livros do autor.

Depois de definir o público, a próxima etapa é encontrar uma idéia diferente, algo que ainda não exista em nossa literatura. Pode ser um personagem ousado, como fez Machado de Assis ao nos apresentar um narrador-morto em Memórias Póstumas de Brás Cubas; um tema surpreendente, seguindo o exemplo de Marcelo Rubens Paiva ao narrar o próprio acidente em Feliz Ano Velho; ou ainda uma linguagem diferenciada, tal como eu fiz em Como mimar seu cão, um dos primeiros livros a tratar o assunto canino por uma ótica humorística e fantástica.

Como ter uma boa idéia? Olhe ao seu redor, observe os pássaros e perca alguns minutos estudando o jardim. Ela pode estar mais próxima do que você imagina. Que tal escrever sobre o Dia Mundial do Livro, comemorado em 23 de abril? Essa pode ser uma grande idéia.

Num próximo passo, você precisa definir o gênero do livro. Pode ser romance, conto, crônica, poesia e biografia, entre outros. O romance é constituído, normalmente, por um texto longo, dividido em capítulos. O principal representante brasileiro é o já citado Machado de Assis, que nos presenteou com ótimas obras, como Dom Casmurro e Quincas Borba.

Já a crônica e a poesia são compostas por textos curtos. A primeira, muito bem explorada por Carlos Heitor Cony, analisa o cotidiano. A Segunda, imortalizada nas mãos de Drumond de Andrade, procura demonstrar sentimentos, normalmente, através de rimas. Mostrando-se, então, muito diferente da biografia, que narra acontecimentos e feitos de uma pessoa. Ruy Castro, com sua linguagem particular, consegue facilmente encantar os leitores interessados em personagens a la Carmem Miranda.

Após definirmos o gênero, público e idéia, chegou a hora de estabelecermos uma linguagem adequada para ser utilizada na obra. Isso é fundamental para uma boa leitura do livro e também para garantir um volume de vendas considerável. O Código Da Vinci, por exemplo, só fez sucesso porque apresentou um texto apropriado para o público alvo.

Antes de elaborar uma linguagem, pense no leitor e questione se ele vai entender o que está escrito. Crianças gostam de palavras fáceis e textos curtos, adolescentes têm necessidades de conhecer textos provocadores e com palavras novas, e adultos, na maioria da vezes, preferem textos mais rebuscados.

Pronto! Agora você está preparado para escrever as primeiras linhas. Consulte sempre um dicionário, formule frases explicativas para guiar o leitor e não esqueça de descrever bem os personagens, destacando as características marcantes, como uma cicatriz ou um cabelo azul.

Quando terminar a obra, leia e releia o texto, sem pressa. Veja se o conteúdo dele interessa ao leitor, questione mais uma vez se o público vai entender o que está escrito. Se a resposta for negativa, tranque o material numa gaveta e comece do zero. É melhor errar agora do que receber várias negativas e a obra não ser publicada.

Dica Extra II: Publicar em Antologia

Cada vez mais as editoras investem na publicação de antologias poéticas, de vários temas e autores. Vale aquela máxima: quanto maior o número de autores, melhor. Afinal, um deles pode, em muito breve, trilhar uma carreira de sucesso e conferir credibilidade ás próximas antologias publicadas. Todo editora sonha em revelar novos talentos e, com a publicação desse tipo de livro, a tarefa fica mais fácil.

Outro motivo que sustenta a publicação de antologias é a maior possibilidade de vendas. O grande número de autores, nesse caso, impulsiona uma vendagem numerosa já no dia do lançamento, quando autores convidam parentes e amigos para tomar um vinho e receber autógrafo. Muitas pessoas compram os livros, a editora fatura mais do que se publicasse obra com apenas um autor e já pensa na próxima antologia.

É assim que tem funcionado boa parte do mercado editorial brasileiro. A publicação de antologia atrás de antologia tem sido constante e mostra um contraste. Algumas editoras se preocupam com o conteúdo, oferecendo material de boa qualidaade; outras nem tanto, optando por inserir autores de várias cidades do Brasil para ganhar visibilidade.

Um terceiro motivo que tem contribuído para as editoras apostarem nesse tipo de publicação tem sido a grande aceitação das livrarias. Além de vender bem no lançamento, muitas antologias ganham destaque nas prateleiras, vendem bem e, em alguns casos, entram para a lista dos livros mais vendidos, em determinadas regiões do Brasil, tornando-se a galinha de ouro das editoras.

Das recentes antologias que tenho recebido para resenhar, destaco duas, pela qualidade e composição. De Santa Catarina, enviaram-me “Cordames & Cordoalhas”, feita pelo Grupo de Poetas Zaragata. Esse livro expõe a produção poética de dezesseis autores, ilustrados por trabalhos de artistas plásticos do Estado. A proposta da antologia é oferecer um interatividade com o leitor, colocando em prática o conceito imagem/imagética, baseado, principalmente, no elemento “corda” – que dá liga ás poesias.

 Deste livro, ressalto “Balanço”, de Lia Corrêa, que analisa a juventude e seu jeito todo particular de conquista: uma vontade imensa / lança-se ao brinquedo / acomodando-se ao / pequeno acento. Essa bela e singela composição poética faz um paralelo á consolidada forma e contexto adotado por Ramone Abreu Amado, em “Tear Primitivo”: construiu sua casa assim que percebeu / as estrelas frias são vermelhas / os folículos dos ovários já não são os / mesmos / desde que o filho fora preso com arma.

De Cuiabá, chegou “Primeira Antologia dos Poetas Livres nas Praças Cuiabanas”, organizada por Neneto e Danilo Zanirato. O objetivo desse movimento é o de promover poetas, cuiabanos ou não, famosos ou não, oferecendo-lhes ferramentas e incentivos para propagar as suas idéias. Logo nas primeiras páginas, o livro traz o hino dos poetas, composto por Joaquim Senra e com muitos elementos irônicos: não somos partido ou clube / embora fazemos reunião / não temos sede nem estatudo / nem ficha de inscrição.

Do livro, destaco duas poesias. Neneto compôs “A praça”, mesclando elementos campestres e urbanos, conferindo um certo dinamismo: a praça é a casa / sem paredes, janelas e portas... / da criança ao adulto, / da menina do menino. Da autora com nome estranho, Luticândia, faço questão de reproduzir “Intelectualidade”, um poema mais compacto, curioso e de difícil interpretação: não se sabe / eu não sei / você não sabe / que eu não sei.

Aliás, esse é um dos principais elementos da poesia. O poeta não escreve para ser compreendido ou idolatrado, escreve apenas para ser lido e degustado. O poeta pode ser até apaixonante, mas dificilmente será um galã da escrita. Ele também não quer isso. Afinal, o que quer o poeta? Nem ele sabe. Mas, quem disse que ele quer saber de alguma coisa? Ele quer apenas escrever, mesmo que seja dividindo espaço em antologias.
 
Dica Extra III: Conquista de Leitores

Muito se tem falado que o déficit de leitura no Brasil só pode ser solucionado com um maciço investimento em alfabetização, vindo de iniciativas privadas ou públicas. Puro engano. Ensinar as pessoas a escrever os respectivos nomes não contribui para o aumento dos livros lidos e não fermenta o nosso mercado editorial. 

Precisamos, sim, de um programa baseado no conceito de letramento. Justificando: a pessoa toma gosto pela leitura somente quando entende o que está lendo e constrói mentalmente os cenários descritos, envolvendo-se com cada uma das páginas, letra a letra. Esse contexto, embora óbvio e essencial, está presente em menos de 10% das escolas e universidades brasileiras, segundo dados que obtive junto a profissionais dessa área.

A explicação: na maioria das instituições, crianças e adolescentes são submetidos a tarefas desgastantes, principalmente a de ler livros difíceis e, posteriormente, realizar uma prova sobre a história, conflitos e personagens apresentados. Atividades como essa contribuem e muito para que, infelizmente, leitores traumatizados e angustiados se afastem definitivamente dos livros, por melhor que esses sejam. Fica claro, então, que a leitura, seja ela em âmbito escolar ou em qualquer outro espaço, não deve ser obrigatória, e sim estimulada a todo instante.

Uma alternativa é deixarmos de lado as normas existentes e desenvolvermos atividades associadas ao letramento, apresentado anteriormente. O método: professores apresentam, durante as aulas, tarefas editoriais e educacionais, como por exemplo, a encenação de um trecho do livro, e mostram, para as crianças e adolescentes, que a leitura é importante para despertar a criatividade, enriquecer o vocabulário, escrever corretamente e até mesmo construir novas amizades.
Com essa estratégia funcionando corretamente, damos início a uma verdadeira mudança, boa para todos os lados. Ganha o mercado editorial, que passa a oferecer um produto agradável e não simplesmente volumes repletos de palavras. Ganha o autor, que passa a ter uma relação mais particular com cada leitor. Ganha também o próprio leitor, que passa a se engajar em ulprapassar as fronteiras do conhecimento, em traçar metas ousadas e em devorar Machado de Assis, Sir Arthur Conan Doyle e as mais complicadas obras de Gabriel García Márquez.

Precisamos, portanto, instituir urgentemente este tipo de programa e tirar a “pedra” que existe entre o leitor e o livro. O investimento é relativamente baixo e o retorno será surpreendente. Por que não começamos agora? Vamos refletir. Como conquistar novos leitores? Esse será, com certeza, o grande desafio do mercado editorial nos próximos anos.

Resumindo: temos que organizar e protagonizar uma verdadeira revolução no mundo das letras, inspirados em Policarpo Quaresma que buscava um Brasil melhor e mais humano. Influenciados pelo Capitão Rodrigo, que não mediu esforços para derrotar o exército inimigo.

Sugiro, inicialmente, duas propostas: a primeira é a imediata inclusão do programa de letramento como disciplina básica da primeira série de todas escolas brasileiras, sejam elas públicas ou privadas. É desde cedo que o ser humano procura algo prazeroso e recebe um leque de oportunidades. Vamos oferecer a ele a chance de enxergar o mundo do livro como algo saboroso. Isso cabe ao governo e a nós, que devemos cobrá-lo.

A segunda proposta é disponibilizar atividades editoriais para alunos e escolas. Como atividades editoriais le-se visitas ás editoras e acompanhamento da diagramação e impressão dos livros, além de, é claro, da observação da rotina de trabalho dos profissionais que fazem os escritos virarem obras, algumas até clássicas. Isso cabe ao mercado editorial.

Com essas propostas, nossa meta passa a ser ainda mais ousada: fazer do livro um companheiro do abajur, da mesa do computador e da pia do banheiro. Ele, em poucas palavras, deve, o quanto antes, ser incorporado ao cotidiano dos brasileiros.

O resultado será, facilmente, medido por meio de pesquisas junto aos novos leitores, que abordariam a quantidade de livros lidos antes e depois da implantação do programa de letramento. Mas, também com base na análise das vendas das livrarias. Quem gostar de um livro, vai certamente comprar outro, seja de um mesmo autor, de um mesmo gênero ou de tema totalmente diferente.

Provaremos, com isso, que o deficit de leitura existia porque faltava oportunidade e, principalmente, incentivo aos leitores. Vamos mudar esse quadro.  

 

Todos os textos acima foram escritos por Rodrigo Capella e não podem ser reproduzidos sem a autorização do mesmo. E-mail para contato: contato@rodrigocapella.com.br